sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A MARAVILHA que queremos para a zona portuária do Rio. 2

Assim como no início do século passado, o Rio de Janeiro vê agora, um século depois, uma nova série de grandes transformações na sua região central. Se Paris foi o grande modelo para as brutais intervenções de Pereira Passos, fazendo do Rio a Paris dos trópicos com sua suntuosa Avenida Central, quais os modelos que estamos buscando ou replicando nas atuais intervenções para a zona portuária do Rio? E, ainda, como se darão essas intervenções?



Desmonte do Morro do Castelo.

Bom, estamos passando por um momento mesmo muito semelhante aquele de um século atrás, pois um novo bota-abaixo está em curso no cais do porto e um novo projeto de destruir a cidade e aplicar outra por cima está sendo lançado. Como reagiremos desta vez? Esperaremos que a criatividade dos políticos cariocas resolva desmontar o morro da providência, como foi feito com o morro do castelo, para angariar mais espaço para as ambições de tornar o centro do Rio o cenário de um surreal e imaginário centro financeiro? Ou criaremos um espaço de diálogo que permita chegarmos ao PORTO QUE QUEREMOS?

Imagens catastróficas de lado, é fato que a política brasileira resolve os grandes projetos urbanos através da replicação de modelos e modismos. Isso foi feito por Pereira Passos ao procurar em Paris um modelo de cidade, ignorando nossa própria geografia e cultura urbana, enquanto outras cidades, como Chicago, já buscavam seus próprios discursos e modelos. Modelos estes que, anos depois, novamente seriam sugados aqui e transformariam outra vez nossas cidades. A avenida Rio Branco, no Centro do Rio, é um exemplo disso.



Avenida Central transformada em Avenida Rio Branco.


Então, por que não tentarmos encontrar as pistas dos modelos que estão implícitos nas propostas advindas da municipalidade para o porto do Rio?

Bom, o primeiro ponto que gostaria de levantar aqui é em relação à operação urbana, os cepacs e a outorga onerosa do direito de construir. Qual a primeira imagem que nos vem à mente depois de mencionados esses três instrumentos? Avenida Berrini, São Paulo. O novo centro financeiro da cidade de São Paulo parece servir de modelo para as intenções do Porto Maravilha de transformação dos bairros da zona portuária do Rio em novo centro de negócios. Voltaremos outra vez nessa idéia de nova Cidade Nova?

Ou é uma nova Puerto Madero? A aparição de Santiago Calatrava aqui no Rio quase nos obriga a cair na óbvia comparação com o projeto de revitalização portuária da cidade de Buenos Aires. Assim como a Barra da Tijuca é o espelho de Miami, parece que é sonho de muitos transformar o porto do Rio na cópia do já famoso porto argentino. Ou seja, a transformação das nossas cidades parece ser moldada pela predileção turística da classe média brasileira! Afinal, Miami e Buenos Aires, assim como já foi Paris no século passado e continua hoje, são os destinos mais procurados pela elite urbana do nosso país.

É claro que projetos não surgem do nada e que outros exemplos sempre servirão de base, consulta, incentivo e inspiração para nossos próprios projetos. O problema é quando eles se tornam meros modelos de reprodução. Se a revitalização portuária de Barcelona pode nos servir como grande exemplo, mais do que repetir sua fórmula e forma ela nos mostra que é necessário buscar um caminho de transformações que seja reflexo de uma cultura arquitetônica, urbana e social. E esse caminho só virá quando se estabelecer e estimular o diálogo entre as diversas partes da sociedade na busca de um verdadeiro e democrático projeto para o PORTO QUE QUEREMOS.

links das fotos
http://professorandregeografia.blogspot.com/2009/03/morro-do-castelo.html
http://cafehistoria.ning.com/photo/av-central-1906
http://classicalbuses.fotopages.com/?entry=1686354

A MARAVILHA que queremos para a zona portuária do Rio. 1




Bom, mais uma vez sinto que é importante dizer aqui que enxergo este blog muito mais como uma plataforma para discussões do que como um puro veículo de comunicação. Nesse sentido, meu principal compromisso aqui é libertar meus pensamentos de um destino solitário, registrando e dando vida à eles ao mesmo tempo em que os compartilho com vocês e espero uma troca. Então, vejo o blog muito mais parecido com o Conglomerado do Oiticica do que com um portal de notícias ou um blog jornalístico.

Digo isso porque é impossível pra mim deixar de voltar sempre nas postagens anteriores deste blog, pois tenho um compromissos com a memória dos meus discursos. Sendo assim, as novas postagens acabam se remetendo a pensamentos antigos ou fazem referências à eles, construindo uma rede em que é uma necessidade minha estabelecer e restabelecer relações com os meus diferentes pensamentos.

Então, depois de explicado isso, quero voltar à postagem “Por que temos medo de viver na floresta? – Um píer e dois museus”, escrita em julho de 2010, para dar continuidade a discussão das últimas postagens sobre as transformações da zona portuária do Rio. Pra quem não leu a postagem antiga o link é esse:

O que quero retomar agora é a questão que me era cara naquele momento no que diz respeito aos diferentes projetos para o Píer Mauá e, por conseguinte, os diferentes projetos para o porto carioca. Acho que eles revelam, cada uma da sua maneira, como aqueles que estão politicamente a frente das operações de transformação do porto imaginam o futuro daquela região. Eu escrevia naquele momento:

“Sendo assim, gosto de pensar na força que existe nessas camadas de projetos que se fizeram para o Píer Mauá, primeiro o Guggenheim, depois um parque público e agora o Museu do Amanhã. Isso me faz acreditar numa coisa que valorizo muito, que é pensar que a idéia e o projeto, mesmo quando não são construídos e concretizados, como gostamos de falar, possuem uma força tamanha que também se afirma no espaço.”

Bom, ainda acredito no que retomo aqui neste fragmento que foi retirado da postagem do ano passado. É impossível pensarmos o PORTO QUE QUEREMOS sem passarmos antes pelo PORTO MARAVILHA do Eduardo Paes e sem voltarmos ao Porto Guggenheim de Cesar Maia. Ainda precisamos entender melhor, digerir e regurgitar o ideal de porto desses dois modelos sugeridos pelas duas administrações municipais da cidade.

Em que modelos cada um deles se apóia? Qual a relação desses modelos com a cidade do Rio de Janeiro? Quais cidades estão sendo espelhadas nessas transformações? Qual o grau de representatividade dos dois grandes museus, o Guggenheim e o Museu do Amanhã, para a idealização desses projetos?

Vamos voltar um pouco atrás para construirmos as maravilhas do PORTO QUE QUEREMOS?

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Da sombra de uma mangueira à Cidade do Samba.














Quadra de Samba da Acadêmicos da Rocinha   e  Faculdade de Arquitetura e Urbanismo USP

links das imagens

A arquitetura do samba, vamos chamar assim, está presente muito além dos seus barracões. Se vínhamos conversando aqui sobre a importância de encontrar no barracão um modelo novo de lugar que conjuga trabalho, lazer e socialização, diferente do atelier ou do estúdio, ainda nos falta pensar nas inúmeras potencialidades escondidas nos outros espaços por onde passa o samba.

É claro que trago aqui apenas um fragmento de pensamento, pois não se trata de iniciar uma pesquisa extensa sobre o assunto. Apenas gostaria de colocar em jogo e trazer para todos a possibilidade, em tempos de carnaval, de repensar o poder maravilhoso que o carnaval e o samba têm de transformar os espaços das cidades brasileiras.

Das rodas de samba embaixo de uma mangueira, onde o samba encontra o morro e a favela, passando pelos quintais do subúrbio carioca até chegar à indústria da Cidade do Samba e seu modelo turístico, uma cidade se transformou. É impossível ignorarmos que a cultura do samba também constrói, revela e transforma as cidades.

Mas será que estamos conseguindo consolidar as importantes transformações vindas daí? Ou melhor, será que estamos conseguindo nos abrir e enxergar as potencialidades surgidas com essas transformações? Acho, como vinha sustentando nas últimas postagens, que a destruição dos barracões na Zona Portuária do Rio para dar lugar a espigões de 50 andares é um exemplo de que não. Pelo contrário, acredito que estamos abrindo mão das inúmeras conquistas que a criatividade da cultura do samba trouxe para as nossas cidades.

É a poesia, a música, a dança que conseguem fazer da cidade, sua forma e experiência, o resultado de um processo libertário e verdadeiro de construção. Quando digo que o samba e o carnaval construíram uma cidade, estou falando de arquitetura. Porque arquitetura não é só feita pelas mãos dos arquitetos, ela é, antes de mais nada, feita de desejo e discurso. E também não é feita só com desenho, pode ser feita com samba, com dança ou com a liberdade de uma pipa.

E daí faz-se uma cidade.

O que dizer das quadras das escolas de samba, que não são clube nem casa de shows, reinventando antigos armazéns, estacionamentos de ônibus ou galpões abandonados? Ou dos barracões ocupando com seu trabalho e alegria uma zona portuária abandonada e esquecida? Ou ainda a reinvenção da rua como passarela, na grande festa deste país que é o nosso carnaval? Ou da maravilhosa sombra de uma mangueira que reúne, protege e abençoa as inúmeras rodas de samba espalhadas por aí. Tudo isso é, e não podemos abrir mão, a arquitetura do samba.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

SESC Butantã e o seu barracão


Bom, alguns de vocês já estão familiarizados com o projeto do SESC Butantã apresentado aqui neste blog em algumas postagens passadas. Fico feliz em poder dizer que esta é uma das maiores visitações do blog e que nunca pára de receber visitas. Este projeto foi fruto do trabalho de uma das minhas matérias na FAUUSP em parceria com minha amiga Flávia Santana e com a orientação do professor Marcos Acayaba. Tentei trazer aqui para o blog a possibilidade de discutir com todos o projeto que eu estava elaborando e foi bem bacana e importante o retorno que tive. Obrigado, gente! Para quem não conhece ainda, os links para as postagens sobre o projeto são esses:

Referências e primeiras inquietações



O projeto, maquete e desenhos



Retomando um pouco este projeto do SESC Butantã, pelo qual tenho imenso carinho e acho que seguirei construindo e pensando nele por alguns bons anos, somo também a discussão da última postagem sobre a riqueza dos barracões de escolas de samba como espaços públicos a serem apropriados pela arquitetura brasileira. Faz pouco tempo que entendi que mais do que um espaço de convivência, como eu vinha chamando até então, o galpão central do projeto do SESC Butantã se revelava como um grande barracão.

Não fosse apenas a apropriação dos elementos da arquitetura industrial, muito presentes ali no bairro por conta das inúmeras oficinas mecânicas e lojas de construção, o galpão central do projeto também se assemelhava com um grande barracão por possibilitar o acontecimento de muitas atividades em um mesmo lugar. O restaurante, as oficinas, a grande passarela e os dois edifícios estavam todos voltados para esta área, que conta ainda com o maior pé direito do conjunto exatamente para criar ali um espaço de criação. Fiz um desenho rápido e ilustrativo para mostrar um pouquinho como seria o convívio dessas diferentes atividades.




Imaginem só um espaço em que se possa acompanhar a construção de uma alegoria carnavalesca enquanto se pretendi ir até a biblioteca, ou que se possa vivenciar a experiência de criação de uma grande escultura dia-a-dia, ou ainda todas as possibilidades e potências que existem na troca entre espaço de criação e espaço de lazer. Acho que esse é o espírito do próprio barracão, onde se almoça, se samba, se cria e se trabalha muito.

Impossível não pensar no CCBB do Rio que, nessa época de pré-carnaval, tem promovido eventos com marchinha e muita animação junto ao seu centro cultural. Lembro também da BIENAL do Vazio, em que assim que entrávamos no prédio de Niemeyer nos deparávamos com uma enorme alegoria carnavalesca. É preciso trazer essas importantes misturas para os espaços de cultura das nossas cidades e é urgente que a arquitetura brasileira se reencontre com aqueles espaços de convívio e troca que são criados diariamente aqui no nosso país.

Então, este é o barracão do SESC Butantã, que se abre para a pequena praça do conjunto e que talvez possa trazer de volta a alegria para o carnaval de rua de São Paulo. Oxalá!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A região portuária do Rio e seus barracões.

Minha solidariedade às Escolas de Samba que tiveram seus barracões atingidos pelo incêndio de hoje na Cidade do Samba.



Nesses últimos dias, a Prefeitura do Rio anunciou a construção de uma segunda Cidade do Samba destinada exclusivamente às escolas do Grupo B que terão seus barracões afetados pelas dilacerantes modificações do projeto Porto Maravilha. À exemplo do que já foi feito na Cidade do Samba das escolas do Grupo A, a proposta da prefeitura é construir uma estrutura de galpões, mais moderna e segura em relação aos barracões atuais, compondo um grande conjunto para servir mais adequadamente aos anseios da indústria do samba.


Junto ao anúncio da prefeitura, um incêndio atingiu o barracão de uma das escolas do grupo B, alertando para a necessidade e urgência da transformação e manutenção dessas estruturas. Sendo assim, não há como negar a real necessidade de cuidado e atenção do poder público para os barracões da zona portuária, ainda mais se pensarmos que se trata de uma área que se pretende transformar para reintroduzi-la no cotidiano da cidade.


Porém, será que a solução para os incêndios e para a boa estrutura das escolas de samba está realmente num mega-conjunto como a Cidade do Samba? E mais que isso, será que as Cidades do Samba e a transferência dos Barracões realmente representam as modificações que desejamos para a zona portuária?


Bom, essas e outras perguntas teremos que nos fazer em uma construção conjunta de toda a sociedade, pois só assim poderemos promover de forma democrática as modificações para o Porto do Rio. De antemão, começo esta discussão revalidando os barracões como inéditos lugares de socialização e cultura que não podem desaparecer, pois são o resultado da criação de um lugar com discurso próprio e alma carioca.


Explico. Estamos acostumados a replicar modelos, importando em forma a representação de certos lugares que nos parecem se adequar a determinadas funções. Para grandes shows construímos arenas, para diversão das crianças parques e playgrounds, para o trabalho imaginamos escritórios, ateliês, estúdios. Mas as estruturas do carnaval reinventaram os espaços, adaptando-os e construindo novos significados. É o caso do Barracão e é o caso também das Quadras das Escolas de Samba.


O Barracão, que é o exemplo desta postagem, resignificou o lugar do trabalho, do lazer e da socialização. É um espaço que não é um clube, não é um ateliê de trabalho e não é uma indústria. Então, o que é o Barracão? É um espaço novo, sem modelos exteriores, que com criatividade e apropriação da arquitetura industrial criou um novo modelo de lugar público. E são eles que mantêm viva a zona portuária do Rio até hoje.


Querer reintroduzir os bairros da região portuária na dinâmica da cidade do Rio é uma necessidade que todos enxergamos, mas ela não pode passar por cima daquilo que há anos mantém vivos esses bairros. Não podemos abrir mão dos barracões como modelos de espaço público que podem e devem ser apropriados por arquitetos e artistas na construção da região portuária do Rio de Janeiro que queremos.


LINKS
http://www.portomaravilhario.com.br/

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Onkalo e a Eternidade




Fedro:
E, de onde então, Sócrates, pode vir esse gosto do eterno que, por vezes, faz-se notar entre os viventes? Tu perseguias o conhecimento. Os mais ignorantes tentam preservar desesperadamente os cadáveres dos mortos. Outros constroem templos e tumbas, esforçando-se para torná-los indestrutíveis. Os homens mais sábios e mais bem inspirados buscam para seus pensamentos uma harmonia e cadência que os defendam, tanto das alterações quanto do esquecimento.

Sócrates:
Loucura! Ó Fedro, claramente percebes. Mas os Destinos decidiram que, entre as coisas indispensáveis à raça humana, figurassem necessariamente alguns desejos insensatos. Não haveria homens sem amor. Nem a ciência, sem absurdas ambições. E de onde pensas que tenham sido extraídas a primeira idéia e a energia para os imensos esforços que erigiram inúmeras cidades tão ilustres e tantos monumentos inúteis que, embora incapaz de os conceber, a razão admira?


Impossível não recordar esse incrível fragmento do diálogo entre Fedro e Sócrates, no maravilhoso Eupalinos ou O Arquiteto de Paul Valéry, para começar a falar da ambiciosa experiência de Onkalo. Talvez porque seja muito difícil para mim não pensar a eternidade dentro do viés da arquitetura e de sua persistente vontade de permanecer (ou seria vencer?) no tempo.

Onkalo é, entre tantas coisas, uma construção. Uma construção que pretende permanecer no tempo por pelo menos 100.000 anos, o que é uma façanha ainda nunca alcançada. Nesse sentido, mais do que ser um reservatório para armazenar todos os resíduos (lixo!) nucleares produzidos pelas usinas finlandesas, Onkalo também é uma experiência de eternidade e luta contra a natureza do tempo.

O que é, então, construir algo que permanecerá por tanto tempo na história da humanidade? Aliás, existirá ainda humanidade? E, dentre tantas mensagens construídas para o futuro, por que logo um reservatório de lixo? Essas são algumas perguntas brilhantemente construídas pelo filme INTO ETERNITY, de Michel Madsen, ganhador do grande prêmio do festival de Lyon de 2010. Madsen constrói com terror e poesia um filme emocionante e cheio de interessantes debates filosóficos que, longe de trazer discussões distantes do nosso universo tátil de entendimento, se aproximam de questões profundas sobre a fácil metáfora que é a própria construção de Onkalo.

E o que é a arquitetura senão um campo de expressão e linguagem que se manifesta exatamente como faz o filme de Madsen? Pois, se a arte é, antes de tudo, um veículo de reprodução da vontade humana de se reportar às coisas do mundo através de outras coisas, ou seja, através de um viés metaforizado, a arquitetura é a expressão disso no que diz respeito à História das construções.

Nesse sentido, Onkalo retoma uma importante discussão para a arquitetura, também presente em Eupalinos, a respeito do seu papel como guardiã das discussões filosóficas sobre o tempo. Em um século XXI marcado por arquiteturas espetaculares em forma que parecem apenas observar os grandes desastres ambientais, repensar a nossa permanência no tempo como sociedade e cultura será um dos grandes desafios da Arquitetura.

Links bacanas!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O novo projeto de fachada para o Shopping Rio Sul, no Rio de Janeiro, e a perda da sua relação com o espaço púlico.

Olá a todos!

Bom, gostaria de começar aqui com vocês uma breve discussão sobre a nova fachada do Shopping Rio Sul, no Rio, e sua nova relação com o espaço público. Sempre me pareceu estranha a grande ausência nas discussões de projeto de arquitetura, seja na mídia especializada ou na academia, sobre espaços de uso coletivo como os Shoppings Centers. É indiscutível a presença deles em grande parte das nossas cidades como também é impossível desconsiderar a sua consolidação e importância como espaço de convívio social, trocas culturais e uso coletivo.

Sendo assim, nada mais natural, acredito, que discutir as mudanças de projeto do maior shopping Center da Zona Sul do Rio e analisar como este novo projeto afeta sua relação com os espaços públicos da cidade.

Por conta da minha leitura do livro “In Search of a New Public Domain”, como comentei no post anterior, tenho pensado constantemente na potência presente na fronteira entre espaços de uso privado e público. É exatamente nesse lugar de conflito que surgem as potencialidades para um verdadeiro intercâmbio entre diferentes grupos e segmentos sociais, o que contribui para a construção de uma sociedade menos segregada e mais plural.

...

Pois bem, o antigo projeto do Shopping Rio Sul, de autoria do arquiteto Ulysses Petrônio Burlamaqui, data da década de 80 e traduz uma versão de Shopping Center ainda muito atrelada ao formato das pequenas Galerias Comerciais existentes no Rio. Porém, neste caso, se tratava de uma galeria comercial de grandes proporções.

Nesse sentido, as pequenas galerias comercias sempre se caracterizaram como extensões das lojas e da rua trazidas para o interior das edificações, levando consigo, assim, o espaço de uso público para dentro de um território privado. Por isso, os limites entre público e privado, no caso das galerias, se revelam fluidos e carregam, em desenho e projeto, elementos da rua para o interior das edificações. O prolongamento do piso das calçadas, bancos de praça e outros recursos são utilizados para ressaltar o caráter dúbio desses espaços.

No caso do projeto original do Shopping Rio Sul, que infelizmente não consegui encontrar disponível na internet, esses elementos utilizados nas galerias também apareciam ali. Nas suas duas portas de entrada principais existiam pequenos jardins, com bancos e plantas, marcando um espaço de encontro, socialização e intercâmbio entre a rua e o interior do Shopping.

No novo projeto, como mostrado na foto abaixo, os elementos de projeto que permitiam a socialização , como os jardins e os bancos, desapareceram e deram lugar a uma grande muralha de vidro espelhado e mármore. A separação entre o que é espaço público e o interior do Shopping está devidamente marcada, mesmo embora, como mostra a foto, exista uma demanda das pessoas por um local de permanência e troca. Como vemos, por se tratar de um ponto de espera, de encontro, de paradas de táxi e pontos de ônibus, as pessoas agora utilizam da muralha de vidro como apoio para o corpo. Da mesma forma, os bancos da rua estão sendo largamente utilizados, assim como, acredito eu, os bancos do interior do shopping. Porém, como uma diferença avassaladora em relação à antes, não há mais troca.