domingo, 21 de agosto de 2011

SAUL STEINBERG – Crônicas da linha de um arquiteto.

Exposição SAUL STEINBERG – AS AVENTURAS DA LINHA se despede hoje do IMS, no Rio de Janeiro, e entra em cartaz em São Paulo, no próximo dia 3, na Pinacoteca.


          É claro que seria impossível para mim, como estudante de arquitetura, visitar a exposição SAUL STEINBERG – AS AVENTURAS DA LINHA , que fui ver no Rio e que pretendo ir de novo em Sampa, sem olhar o incrível e cômico trabalho do grande cartunista da NEW YORKER como sendo também uma obra de um arquiteto de formação. Steinberg se formou em arquitetura em 1940, pela Politécnica de Milão, e leva para seus famosos desenhos, crônicas da vida moderna, especialmente da americana, traços mais que perceptíveis de sua passagem pelas cadeiras da faculdade em arquitetura.

          Fica difícil então, visitando sala a sala da exposição, não procurar na memória a lembrança daquelas aulas de desenho de observação, a turma de recém ingressados na faculdade sentados em alguma esquina da cidade, tentando, mais do que copiar a arquitetura ali exposta, aprender sobre o jeito próprio que cada um tem para captar as imagens da cidade. Steinberg parece reiterar com sua obra genial a importância daquelas aulas e da busca da percepção através do desenho como forma de apreender a cidade e suas arquiteturas. Uma obra que é também uma aula sobre um dos mais fundamentais instrumentos da arquitetura: o desenho.



         Talvez por isso eu tenha ficado tão feliz ao ver uma turma de estudantes de arquitetura visitando a exposição no Rio, orientados por uma professora atenta à importância do conhecimento da obra de Steinberg como uma forma de, em tempos de instrumentos digitais, renovar os votos sobre a crença no desenho como importante ator no desenvolvimento de um arquiteto em formação. Espero encontrar também em São Paulo, cidade com o maior número de escolas de arquitetura, a partir do dia 3 de Setembro, muitas turmas interessadas no destino desse arquiteto que virou um dos maiores cartunistas da História.


 
     Vendo seus trabalhos e a qualidade do seu desenho, fica difícil não ter vontade de ver uma exposição só sobre os desenhos de arquitetos, novos e antigos. Como será o traço de Paulo Mendes, por exemplo? Se os desenhos de Niemeyer já estão imortalizados na nossa memória, como seriam os de outros arquitetos, como Lucio Costa, Reidy, Artigas, Peter Zumthor, Jean Nouvel? Zaha desenha à mão? A proximidade de Steinberg de Lina Bo Bardi, que assim como ele também estudou na Itália, em Roma, e que esteve muito próxima dele quando trabalhava em Milão, nos faz logo pensar na qualidade do desenho de Lina como parte fundamental da sua arquitetura - Steinberg no auge do seu trabalho expôs no MASP, quando Pietro Maria Bardi, marido de Lina, ainda era diretor da instituição. A arquitetura de Lina, como de tantos outros, não existiria e nem seria a mesma sem seus trabalhos especulativos no desenho. Não no desenho técnico, que se facilitou com instrumentos digitais como o AutoCad, mas no desenho livre, aquele que mais se conecta com nossa imaginação e que melhor representa a ponte entre os nossos desejos e a realidade.

         Fica para nós a vontade de uma exposição sobre o desenho na arquitetura, mas por enquanto ficamos muito bem com Saul Steinberg – a Aventura da Linha, logo logo em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Oba!

domingo, 14 de agosto de 2011

ABEL VENTOSO nas fronteiras da arquitetura

         

         Folheando uma revista especializada em artes visuais há algumas semanas atrás, me surpreendi especialmente com uma imagem, dentre toda a abundância de informações visuais que pouco pude digerir numa rápida folheada, sem a qual não poderia começar a conhecer o vigoroso trabalho do artista argentino Abel Ventoso. Memorizei seu nome e fui buscar na rede mais informações sobre sua obra e sua biografia. Desde a primeira imagem foi difícil não comparar seus atuais planos de relevo com trabalhos dos anos 60 e 70 do nosso Sérgio Camargo, com pesquisa muito parecida as do jovem artista argentino. A comparação se tornou ainda mais inevitável depois que conheci em seu site mais alguns de seus trabalhos.

          Tenho particular paixão pela aproximação do trabalho de Sérgio Camargo com a arquitetura moderna brasileira, em meados do século passado, e não à toa o tema central deste blog flutua ao redor das fronteiras possíveis e ilimitadas da arquitetura. Qual então não foi minha surpresa ao saber que, além de muito próximo ao trabalho de Camargo, Ventoso também tinha uma formação acadêmica em arquitetura, o que só viria a somar minha curiosidade por conhecer mais de sua obra.




          Trabalhos como S55, de 2011, trazem consigo a inevitável capacidade de resgatar a imagem de trabalhos com resultado estético muito semelhante aos que tanto nos acostumamos a conhecer dos nossos Sérgio Camargo e Athos Bulcão. Uma prova de que as obras desses lendários artistas brasileiros continuam latentes e propulsoras de novos movimentos e investigações, assim como geometria e construtivismo, temas de investigação plástica comuns a todos eles e que possuem grande apelo e facilidade em produzir interfaces com a arquitetura.

                           
                        Trabalhos de Athos Bulcão e Sérgio Camargo. fontes: http://www.bolsadearte.com/cotacoes/camargo_sergio.htm e http://www.fundathos.org.br/galeriavirtual
 
          O site oficial de Abel Ventoso vale uma boa e minuciosa visita: www.abelventoso.com . Sem dúvida, um trabalho para se conhecer e acompanhar.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

ENTREVISTA com o Arq. Cid Blanco sobre as PRAÇAS DO PAC

CID BLANCO é arquiteto, formado pela faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Atualmente é diretor especial de programas de infraestrutura cultural da secretaria executiva do Ministério da Cultura.

AS PRAÇAS DE ESPORTE E CULTURA - PRAÇAS DO PAC

1PADRONIZAÇÃO VERSUS DIVERSIDADE CULTURAL

transbordarquitetura!: A recente iniciativa das praças do PAC traz consigo o enorme desafio de se construir em diferentes partes de um país de dimensões continentais equipamentos de esporte e cultura com um mesmo programa padrão. Tendo em vista a diversidade geográfica e cultural das diferentes cidades que poderão adotar o projeto, qual questão justificou a padronização adotada por vocês de três modelos arquitetônicos e programáticos a serem replicados em todo o país, com 700m², 3000m² e 7000m² cada um? Quais critérios os fizeram chegar a estas três propostas e qual grupo de trabalho exatamente as idealizou?

Cid Blanco: Padronização mesmo só existe da questão programática, na definição dos serviços que devem existir nas Praças, afinal de contas a essência do programa é unir num mesmo espaço físico (praça ou edifícação), serviços públicos de diferentes naturezas. Se abrirmos mão disso, deixaria de ser a Praça dos Esportes e da Cultura e viraria outro projeto. Já os três modelos arquitetônicos que apresentamos são projetos de referência, e portanto, podem ser adotados ou não pelos proponentes. Não é impositivo, nem nunca será. Entretanto, era imprescindível colocar no papel a proposta teórica e ter uma idéia de quanto seria o custo de cada um dos modelos. E baseados nesses projetos pudemos definir os valores que estão sendo repassados aos municípios beneficiados na primeira seleção que ocorreu em 2010.

A idealização do projeto foi realizada por uma equipe de consultores (arquitetos), em conjunto com a equipe de arquitetos dos Ministérios da Cultura, Esportes e Desenvolvimento Social e Combate à Fome, mais os analistas de infraestrutura (engenheiros) do Ministério do Planejamento. A base da criação da proposta se deu por meio da discussão do projeto de equipamentos já existentes como os SESCs, os CEUs e as Praças da Juventude, entre outros. Além disso, existem também os critérios e padrões estabelecidos pelos Ministérios para seus equipamentos, como é o caso do CRAS, das bibliotecas e das quadras.

Quando eu assumi a Diretoria, os projetos já estavam definidos e apenas pude fazer a revisão dos mesmos, focando na questão dos acessos e de padrões mínimos de funcionalidade dos equipamentos. Uma nova revisão acabou de ser feita e acredito que se tivéssemos mais tempo faríamos cada vez proposta melhores, de modo a inspirar os arquitetos locais, quando da adaptação para a realidade de cada Praça.

2INCENTIVO À ARQUITETURA COMO ECONOMIA CRIATIVA

transbordarquitetura!: Em seu discurso de posse, a Ministra da Cultura Ana de Hollanda valorizou de forma inédita a importância da arquitetura como fundamental ator da cultura brasileira e salientou seu empenho pessoal em promovê-la durante sua gestão no ministério. Em que medida, como seu diretor de infra-estrutura, você vê nas praças do PAC uma oportunidade de se incentivar o desenvolvimento da economia criativa que gira em torno da arquitetura tendo em vista que não há a obrigatoriedade de adoção dos projetos arquitetônicos sugeridos pelo MinC caso as cidades possuam outros projetos com o mesmo desempenho programático? Por que não se optou, por exemplo, pela abertura de concursos de projeto como forma de promover este incentivo?

Cid Blanco: Existe uma coisa chamada tempo de gestão na administração pública e nesse caso, temos uma questão importante: as cidades beneficiadas com a primeira seleção de 401 PECs passarão por eleições no próximo ano. A realização de concursos públicos de arquitetura para selecionar os projetos de cada uma dessas Praças, ou mesmo para eleger os melhores projetos, não permitiria que nesse momento, 362 municípios estivessem assinando contrato para dar início as suas obras. Estamos falando de recursos públicos com valor pré-estabelecido, ou seja, que não são reajustados. Sendo assim, quanto mais tempo se demora para contratar e iniciar as obras, maior a contrapartida municipal.

Sob a questão da economia criativa, infelizmente não acredito que o impacto das PECs no mundo da arquitetura será pesado, pois estamos falando de prefeituras de capitas e de cidades de médio e grande porte que costumam ter em seu quadro de funcionários, arquitetos e engenheiros. Dessa maneira, acredito que a produção arquitetônica das Praças será, em sua maioria, desenvolvida dentro das próprias Prefeituras. Sem contar, como você mesmo mencionou, que muitas prefeituras já possuem projetos próprios para equipamentos parecidos. Esse impacto mais pesado no mundo da arquitetura e engenharia está realmente ocorrendo, porém, por conta de outros programas do Governo Federal, como os investimentos em infraestrutura do PAC e o Minha Casa Minha Vida, que aqueceram o mercado da construção civil em toda sua cadeia.

Esse fato não diminui a importância que o MinC dá para a questão da arquitetura, conforme enfatizou a Ministra Ana de Holanda em seu discurso. Especialmente pelo fato de estarmos preparando nesse exato momento, um edital para lançar nas próximas semanas um Concurso Nacional de Idéias e Projetos de Espaços Culturais Multifuncionais.

3IAB E AS AÇÕES PROMOVIDAS PELO MINC

transbordarquitetura!: Nesses últimos meses, o Instituto dos Arquitetos do Brasil/RJ conseguiu intervir no processo de elaboração dos projetos olímpicos e sugerir a maior participação dos arquitetos nas suas escolhas, principalmente com a abertura de grandes concursos de âmbito nacional e internacional. Outros programas como o Rio Cidade, Favela Bairro e Morar Carioca, além dos emblemáticos casos das unidades SESC paulistanas, também têm ou tiveram grande participação dos arquitetos no desenvolvimento dos seus principais projetos. Como você analisa a potencialidade da participação dos arquitetos em obras públicas no Brasil e o que faltaria para uma parceria estratégica entre as instituições de arquitetura e os programas de ação promovidos pelo Ministério da Cultura?

Cid Blanco: Bom, não falta nada para consolidar essa parceria, pois conforme acabei de mencionar estamos nos preparando para lançar um concurso nas próximas semanas em parceria com o IAB nacional. A idéia é exatamente ampliar a discussão arquitetônica sobre a questão da qualidade dos projetos de equipamentos públicos. Acho importante destacar que os últimos concursos mencionados trataram sempre de ações pontuais e localizadas numa única cidade. O desafio de fazer essa discussão mais ampla tendo como universo um país diverso como o Brasil é um dos principais pontos que queremos tratar com nosso concurso. Aguardem mais notícias em breve.

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Gostaria de agradecer a participação do Arquiteto Cid Blanco neste breve debate, que se mostrou sempre muito solicito e gentil à todas as minhas mensagens, e terminar dizendo que fiquei muito contente com este início de discussões sobre as praças do PAC. Iremos continuar acompanhando aqui no blog os desdobramentos deste projeto tão ambicioso e importante para o país, por isso aproveito para convidar todo mundo a mandar sua críticas, sugestões e imagens das Praças que possam estar surgindo perto de vocês! Tenho certeza que podemos construir uma discussão bem bacana e que em muito pode acrescentar para esta nova experiência das Praças.

Um grande abraço!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Com potencial para fazer uma importante revolução Brasil afora, Praças do PAC propõem restaurar o encontro da cidade com a cidadania através de equipamentos de Cultura e Esporte nas periferias e cidades médias do país.


Porém, distantes do fato, arquitetos parecem ainda não terem acordado para sua fundamental participação como provocadores e fomentadores de idéias e críticas junto a esta importante proposta do Ministério da Cultura e do Governo Federal.

Exemplo de praça de 3.000m²


         À semelhança do grande impacto de projetos de equipamentos de esporte, lazer e cultura que são emblemáticos casos de sucesso, como as unidades do SESC (Serviço Social do Comércio) e os complexos educacionais dos CEUs(Centros Educacionais Unificados), o Governo Federal lançou, via proposta do Ministério da Cultura, seu projeto de Praças do PAC, ou, como estão preferindo chamar agora, Praças de Esporte e Cultura - PEC. Ao todo estão previstas 800 praças a serem construídas nas principais cidades médias e regiões periféricas metropolitanas de todas as regiões do país, incluindo assim cidades que sempre foram massiçamente negligenciadas quando o assunto era a criação de tão importantes agentes de transformação social como são os aparelhos de cultura e esporte do Estado. Se formos levar em conta o número mínimo de teatros, cinemas, museus e bibliotecas que podemos encontrar fora das capitais no Brasil, as praças do PAC propõem uma ação quase de ineditismo no país.
          Para concretizar isso, o MinC lança mão de três modelos de projetos de praças do PAC a serem adotados pelas municipalidades, que terão de arcar com o desenvolvimento e manutenção futura do projeto escolhido para seu respectivo município. Estão disponíveis propostas para terrenos regulares com 700m², 3000m² e 7000m², sendo a primeira metragem referente a um pequeno edifício de 4 pavimentos. Se a qualidade das especificações dos projetos propostos pelo MinC demonstram uma gigantesca vontade de realizar um projeto potente e transformador, com obrigação do uso de estruturas para reciclagem, bicicletários e espaços de atendimento social, por outro lado ficamos com a velha problemática da replicação de projetos base em um país de escala continental e diferenças culturais e ambientais completamente diversas à uma proposta universal. Além disso, terrenos ideais como os propostos, planos e com formas regulares básicas, podem até ser encontrados nas áreas de intervenção propostas, mas não são necessariamente os locais ideais para aplicação do projeto com as melhores situações de proximidades com as linhas de transporte público da cidade, por exemplo.


Exemplo de praça de 700m²

          Nesse sentido, me parece que aqui o arquiteto é fundamental para o desenvolvimento correto e verdadeiramente potente desta proposta de praças do PAC, pois seu trabalho criativo pode ir além das propostas base advindas do ministério, refletindo situações de terreno, clima e cultura diversas, e atuar na melhor aplicação das propostas sugeridas sem perder a essência do seu programa proposto. O próprio MinC não fechou seus modelos como as únicas formas de aplicação do projeto, apenas os cita como referência a serem seguidas. O que, no Brasil, pela inércia, preguiça e má vontade de grande parte dos dirigentes municipais, significa não ir além do óbvio e aplicar o que já está pronto, infelizmente.

          Desta maneira, acredito que aqui entra a vontade dos arquitetos e suas instituições e federações em embarcar nesse projeto, chamando para si as responsabilidades de fazer dele uma proposta bem sucedida e realmente transformadora para a realidade muitas vezes limitada dos moradores das periferias e cidades médias brasileiras. IAB e outras instituições precisam abrir laços de comunicação e discussão de sua participação neste projeto, buscando maneiras de fomentar concursos públicos de idéias ou de estimular a participação dos escritórios de arquitetura nesta empreitada, a exemplo de tantas outras iniciativas. A pluralidade de arquiteturas (e boas arquiteturas) das unidades SESC de São Paulo é só mais uma estímulo para pensarmos quão promissora pode ser a intervenção daqueles que estudam arquitetura na promoção de criativas, diversas e plurais novas propostas para as praças do PAC. Além do que, para nós arquitetos, pode se abrir mais um importante campo de atuação profissional e estímulo da nossa profissão em todo o território nacional, servindo assim de importante fonte de troca entre arquitetos de todo o país.

         Sem dúvida, uma iniciativa promissora que não podemos deixar passar ou repetir velhos erros do passado, em que precisamos estar todos juntos nessa! Oba!

         Para mais informações, visite o site http://pracas.cultura.gov.br/index.html



domingo, 24 de julho de 2011

Obra de Paulo Mendes da Rocha em São Paulo, Galeria Leme será destruída para dar lugar a um edifício de escritórios.

O mais curioso: por conta da possível repercussão de sua demolição, será reconstruída uma cópia quase idêntica sua nas redondezas do projeto original.




          Passo quase todos os dias por uma misteriosa obra na marginal do Rio Pinheiros, Zona Oeste da capital de São Paulo, que por conta do tamanho do seu terreno (fruto de demolições) e seu gigantesco canteiro de obras provavelmente abrirá caminho para mais um projeto arquitetônico de grandes proporções na cidade. Como não poderia deixar de ser, fiquei muito curioso por saber do que se tratava o projeto por detrás daqueles tapumes da Odebrecht, principalmente por estarem colados a pequena e justamente por isso tão bem concebida Galeria Leme, obra do arquiteto Paulo Mendes da Rocha. Resolvi então fazer uma rápida pesquisa na internet para tentar saciar minha curiosidade.

          Qual não foi minha surpresa quando, mais importante do que conhecer o projeto deste novo grande empreendimento imobiliário, soube que não teríamos naquele terreno um vizinho da Galeria Leme, mas sim o motivador da sua futura demolição! Esta pequena jóia da arquitetura brasileira será destruída para dar lugar a um colossal edifício de escritórios, em mais uma pouco criteriosa ação de transformação da cidade. Surpresas à parte, é evidente que aqueles que idealizaram o novo majestoso projeto já previam toda a repercussão originada pela demolição de uma obra de um prêmio Pritzker brasileiro e se anteviram a isso. Como compensação à demolição, propuseram a estranha reconstrução da galeria de arte em outro terreno próximo ao do projeto original, a cargo dos seus mesmos arquitetos originalmente responsáveis e com algumas mínimas adaptações. Ou seja, teremos em breve uma nova antiga Galeria Leme, ou como a reportagem do Diário de São Paulo preferiu chamar: um clone. 

 (matéria vinculada no jornal Diário de S. Paulo em 06\06\2011 em: http://www.diariosp.com.br/_conteudo/2011/06/86881-conheca+primeiro+predio+clonado+em+sao+paulo.html)

 
          Se a compensação pareceu satisfatória para o proprietário da Galeria Leme, que prefere vê-la reconstruída ali perto a torná-la passado ou fruto de um novo projeto para o novo terreno, para nós, arquitetos, ela precisa ser objeto de alguma desconfiança e de muita discussão. Se sua demolição já parece inevitável, (eu nem mesmo sabia que ela corria este risco, e olha que não sou tão desinformado assim!) ao menos precisamos acompanhar seu processo de demolição e fazer deste um precioso objeto de estudo para futuras ações coletivas que respondam a este movimento de transformações da cidade em que os arquitetos estão longe de serem protagonistas e passam ao largo das decisões tomadas.



          Afinal, não é nova a idéia para a arquitetura de se reconstruir uma consagrada obra arquitetônica em outro tempo ou terreno, a própria reportagem do jornal paulistano lembrou alguns casos emblemáticos, como o do Pavilhão Barcelona de Mies Van der Rohe. Porém, o que vemos no caso paulistano é que a reconstrução parece ser apenas um pretexto para se permitir o uso indiscriminado da cidade para os interesses oblíquos de um mercado especulativo. Os interesses da sociedade, da cultura e da arquitetura, objetos do trabalho e da ação dos arquitetos, estão longe de fazerem parte desta reconstrução.

         Nós mesmos aqui no blog já chegamos a propor uma reconstrução fora do tempo que coincidentemente interviria em uma quadra bem próxima a Galeria Leme. Tratava-se do SESC Butantã, postado aqui em 2010. Porém, no nosso caso, a provocação de se reconstruir o teatro de Marechal Hermes, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, de autoria do arquiteto carioca Affonso Eduardo Reidy, nos parecia uma maneira de repensar em que condições se encontravam naquele momento da história o teatro original e de como restaurar a potência e genialidade do traço simples de Reidy para aquele projeto. Em nenhum momento a reconstrução foi um pretexto para outra grande obra, construindo um discurso vazio que apenas reconsidera o valor da obra arquitetônica por conta da repercussão da opinião pública em cima do caso.


          Enfim, precisamos ficar atentos e continuar repercutindo o caso. Se “a modernidade está fazendo com que os imóveis se tornem móveis”, como declarou Paulo Mendes sobre a reconstrução da sua obra em depoimento dado à reportagem do Diário de São Paulo, nos basta discutir quais caminhos nos parecem pertinentes a serem seguidos dentro desta modernidade e qual a validade de alguns discursos para a manutenção das nossas cidades e arquitetura. Afinal de contas, a modernidade é fruto de nossas ações presentes que, atualmente, parecem fazer da cidade refém da ausência de arquitetos e urbanistas como mediadores de suas transformações.

p.s. Para conhecer mais da Galeria Leme recomendo as bacaníssimas maquetes com cortes esquemáticos, de um aluno da PUC-RIO expostas em seu blog em http://arquitetura-e-arte.blogspot.com/2010/06/maquetes-da-galeria-leme.html 


terça-feira, 19 de julho de 2011

Peter Zumthor Serpentine Pavillion 2

     No comecinho de Maio, especulamos e discutimos aqui no blog sobre o novo pavilhão de verão do Serpentine Gallery de Londres, projetado este ano pelo arquiteto suíço Peter Zumthor. Sendo assim, nada mais natural do que voltarmos agora, passada uma estação, para divulgarmos o resultado daquilo que ainda era apenas projeto e algumas poucas imagens distribuidas pela mídia. Compartilho com vocês aqui um breve passeio que Peter Zumthor fez apresentando seu pavilhão para o site TheTelegraph e uma generosa conversa para o TheGuardian:






     É claro que da mesma maneira como discutimos em Maio sobre a impossibilidade das imagens 3D em conseguirem expressar e representar toda a potência da arquitetura de Zumthor, as câmeras de video também não conseguem ser tão fidedignas à experiência daquela arquitetura ali proposta , ainda mais nesse pavilhão de cheiros, texturas e diferenças de temperatura. Porém, diferente da frieza estranha do 3D, mesmo que distantes, através da câmera podemos bisbilhotar interações espontâneas, olhinhos curiosos, insetos festivos por entre as plantas e, mais que isso, o sorriso de felicidade declarada do arquiteto. Para mim, que não visitei o pavilhão pessoalmente, os videos revalidaram todas aquelas especulações que fizemos aqui no começo do ano!

Arquiteto, insetinhos e blogueiro felizes com o resultado. E vocês, o que acharam?

        Para quem não leu a postagem de Maio e não conhece as imagens renderizadas do projeto, tão fortemente criticadas nas redes sociais Brasil afora, aqui vai o link: http://transbordarquitetura.blogspot.com/2011/05/peter-zumthor-serpentine-pavillion.html

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Conversando com Cezar sobre a questão da profundidade imperceptível na arquitetura.

Olá, Cezar.

Você se incomoda se eu responder diretamente às suas postagens do blog (http://realidadeimprovavel.wordpress.com/) por aqui? Desculpe criar uma postagem que mais parece um e-mail, mas esta me parece ser a forma mais bacana de corresponder às suas respostas para a minha publicação sobre a profundidade imperceptível na arquitetura. Muito obrigado por continuar aquele papo!

Bem, só conhecia o Lotto-Turm do Lars Behrendt de vista, pois tinha apenas as imagens do projeto na memória. Gostei bastante das suas reflexões sobre ele e fiquei imaginando alguma célula daquelas, potente e incubadora de idéias novas, agitando as transformações da região portuária do Rio. Uma ótima provocação para um projeto PORTO MARAVILHA que parece apenas ser um veículo de especulação mercadológica da cidade.

Amei também sua citação da Gabriela Pires Machado, pois acho que as “inúmeras espacialidades suspensas” descritas por ela, que se “ ancoram na experiência sensível” de cada um de nós, se assemelham de maneira clara com minhas reflexões sobre a profundidade imperceptível na arquitetura. Gabriela é sua colega, sua amiga, possui um blog? De onde você retirou o fragmento que citou? Fiquei realmente muito curioso em saber mais!

Lendo suas três postagens, ficou uma vontade imensa de registrar aqui e compartilhar uns pensamentos que andam martelando na minha cabeça. Sabe daquelas frases que não têm contexto exato, mas que você precisa registrar para que elas não se percam? Então, é por aí...

Queria muita dizer e dividir que me interessa, sinceramente, muito mais a escala do beijo do que a escala do colosso ou do monumento. Acho que o beijo reflete muito daquilo que estávamos discutindo sobre a perda de uma espacialidade mensurável tecnicamente e também sobre a redescoberta de dimensões infinitas do espaço, assim como de novas formas de medi-lo. Às vezes me parece que aprendemos arquitetura em nossas faculdades como se ela fosse algo realmente visível o tempo todo e como se estivessem todos atentos à ela de uma maneira objetiva sempre. Pensar na arquitetura medida pelo beijo ou onde fica a arquitetura no momento do beijo, se some ou coexiste, parece constituir um caminho mais interessante para mim do que apenas fazer dela o resultado de números e formatos.

Imaginar que a arquitetura é sentida e experimentada por pessoas que beijam, transam, comem, dançam, dormem e sonham me parece ainda um caminho grande e difícil de redescoberta do sentido da própria arquitetura. A arquitetura para mim é esta entidade que compartilha o tempo todo conosco estas experiências de vida e exatamente por isso precisa refletir nossos sentidos e experimentações nela e na forma como é concebida. Grande desafio, né?

Enfim, não vou colocar ponto final nesta nossa discussão, pois ela ainda tem muito o que dizer. Continuamos nosso papo, então. Grande abraço!